Publicado originalmente na Revista Sinepe/ES, edição 28, ano 11, agosto de 2025, páginas 20 a 22.
Quem cresceu nos anos 80 e 90, ainda guarda na memória o cheiro do álcool das provas mimeografadas. Aquele aroma carregava a tensão dos exames e a lesão dos professores. O mimeógrafo, por décadas, foi estrela da sala dos professores. Hoje, descansa ao lado da palmatória e do retroprojetor. Mas será que estamos à beira de aposentar também a escola presencial?
Será que um dia netos perguntarão aos avós se era verdade que crianças ficavam presas em prédios por 17 anos apenas por serem crianças? Será que em breve a professora Alexa e o professor GPT disputarão com Paulo Freire o título de patrono da educação?
Se depender da maneira como estamos promovendo a qualidade da experiência dos nossos clientes, corremos o risco de extinguir a escola presencial como a conhecemos. O imaginário coletivo já vem pintando a escola como um lugar frio, anacrônico, desumanizado. E talvez a única salvação esteja justamente no resgate daquilo que nos torna humanos: o estado de presença.
A linguagem revela caminhos. Quando dizemos “escola presencial”, esquecemos que o que salva não é o prédio, é a presença. O que pode voltar a encantar a escola é o estado de presença: mente, corpo e coração inteiramente voltados para o agora.
Mas estamos (dis)traídos. Traímos o presente com a ansiedade do futuro. Traímos o encontro com a pressa. Traímos a escuta com julgamentos e antecipações. E, dentro dessa escola que diz ser “presencial”, o que vemos nos muros e grades são ordens: proibido entrar com esta roupa, com este eletrônico, neste horário. Poucos dizem: que bom que você veio.
Sou professor de Projeto de Vida. Trabalho com adolescentes que carregam no corpo e na alma a ausência de presença. Muitos são vítimas de abandonos profundos — e o mais cruel deles é o abandono de quem está por perto, mas nunca está próximo e disponível. Eles têm fome. E não é só de merenda: é fome de proximidade, de afeto, de acolhimento.
Acredito: do porteiro ao diretor, todo mundo é educador. Cada gesto pode ensinar mais que algoritmos. Um abraço pode nascer no “bom dia” da portaria, no olhar que acolhe, na alegria estampada no caminho até a sala.
E para não parecer só poesia, deixo aqui um fato: fim de ano. Turmas esvaziadas. Entro em sala e encontro três alunos. Um deles era Diogo (nome fictício). Pergunto se precisava de nota. Ele diz que já passou. Pergunto por que ainda vinha. Ele responde: “Porque a escola tem cheiro de limpeza.”
Ele contou que a mãe está em depressão, os irmãos pequenos fazem cocô no chão, o pai às vezes chega bêbado e vomita. Disse que o cheiro da casa é insuportável. Mas na escola… na escola tem cheiro de limpeza. E que enquanto deixarem, ele vai continuar vindo. A fala de Diogo me atravessou.
Contei às profissionais da limpeza. Elas se emocionaram. Não sabiam que sua rotina silenciosa era o que mantinha aquele menino na escola. Elas educam. Com panos, vassouras e humanidade.
A escola que não virará mimeógrafo é aquela que entende que cada colaborador é educador. Que nas jornadas pedagógicas celebra também quem ensina com vassoura, panela, livro de ocorrências, ou um simples “bom dia”. Do porteiro ao diretor, todo mundo é educador.
Sobre o autor
Fabio Flores é professor da rede pública estadual do Espírito Santo, psicólogo (CRP 16/12255), escritor, palestrante e mestrando em Ensino de Humanidades pelo Instituto Federal do Espírito Santo, campus Vitória.
Sobre o autor
Fabio Flores dos Anjos, conhecido profissionalmente como Fabio Flores, é professor da rede pública estadual do Espírito Santo, psicólogo, escritor, palestrante e mestrando em Ensino de Humanidades pelo Ifes. É autor e coautor de livros e apresenta o podcast “Precisava Ouvir Isso”.